Imigrantes madrugam

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A crescente dificuldade em conseguir atendimento na Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA) está a levar dezenas de imigrantes a madrugar diariamente à porta da Loja do Cidadão do Funchal, numa tentativa de garantir uma das escassas senhas disponíveis. O fenómeno, que se intensificou desde dezembro, reflete os constrangimentos no sistema de regularização de imigrantes na Madeira.

Filas desde a madrugada para apenas 15 senhas diárias

Todos os dias, ainda antes do amanhecer, formam-se filas à porta do balcão da AIMA no Funchal. O motivo é simples: apenas cerca de 15 senhas são distribuídas diariamente, número insuficiente face à procura crescente.

Uma cidadã venezuelana, chegou às 15h30 do dia anterior para garantir lugar. É a primeira de quase 50 pessoas que aguardam atendimento. Apesar de já ter obtido autorização de residência, continua sem receber o cartão físico desde novembro do ano passado, situação que ilustra os atrasos no processamento dos pedidos.

“Já venho pela terceira vez. É demasiado tempo de espera para tão poucas vagas”, relata.

Processos de legalização acumulados na Madeira

A situação não é isolada. Atualmente, existem cerca de duas mil pessoas na Madeira à espera de concluir processos de legalização, num universo de mais de 16 mil imigrantes residentes na região — cerca de 6% da população total.

Nos últimos anos, o número de estrangeiros em Portugal tem aumentado significativamente, com a AIMA a emitir centenas de milhares de autorizações de residência a nível nacional. Só em 2025, foram emitidos mais de 386 mil títulos, um crescimento de 60% face ao ano anterior :contentReference[oaicite:0]{index=0}.

Este aumento da procura tem colocado pressão sobre os serviços, especialmente em regiões insulares como a Madeira, onde os recursos são mais limitados.

Atrasos e dificuldades no acesso aos serviços

Além da limitação de senhas, muitos imigrantes enfrentam dificuldades adicionais, como atrasos na entrega de documentos, falhas na comunicação com os serviços e falta de informação clara sobre o estado dos processos.

Orlando Campos, outro utente que aguardava atendimento, deslocou-se ao local pela segunda vez, sem sucesso na primeira tentativa. “Não sabia que havia limite de pessoas. Espero que hoje consiga”, afirmou.

Casos como estes têm sido recorrentes e evidenciam fragilidades na capacidade de resposta da AIMA, apesar de esforços recentes para reforçar o atendimento e reduzir pendências. Em 2025, por exemplo, cerca de 35% dos processos de renovação em atraso na Madeira já tinham sido recuperados :contentReference[oaicite:1]{index=1}.

Impacto social e económico da demora nos processos

A demora na regularização pode ter consequências diretas na vida dos imigrantes, dificultando o acesso ao emprego, à habitação, aos serviços de saúde e à integração plena na sociedade.

  • Impossibilidade de assinar contratos de trabalho
  • Dificuldades no acesso a serviços públicos
  • Insegurança jurídica e social
  • Risco de situações de irregularidade administrativa

Num contexto em que a imigração desempenha um papel importante na economia regional, especialmente em setores como turismo, construção e serviços, os atrasos administrativos podem também ter impacto no tecido económico local.

Pressão sobre a AIMA exige soluções estruturais

Apesar de iniciativas recentes para aumentar a capacidade de atendimento e modernizar os serviços, como a ampliação do balcão no Funchal, a procura continua a superar a oferta :contentReference[oaicite:2]{index=2}.

Especialistas defendem que será necessário reforçar os recursos humanos, melhorar os sistemas digitais de agendamento e descentralizar o atendimento para evitar situações como as que se verificam atualmente.

Enquanto isso não acontece, a realidade mantém-se: dezenas de pessoas continuam a chegar de madrugada, numa corrida diária por uma senha que pode definir o seu futuro em Portugal.

Fonte: RTP Madeira